Playback (2026)
Realização: Sérgio Graciano
Argumento: Mário Cenicante
Elenco: Rafael Ferreira, Laura Dutra, Beatriz Brás, Mariana do Ó, Rita Durão, António Mortágua, Anabela Moreira, Albano Jerónimo
★
Não me dá prazer nenhum reportar que Playback, cinebiografia de Carlos Paião, é uma obra muito fraca e que certamente estará na minha lista de piores do ano. Dizer que o malogrado cantor e compositor merecia melhor do que isto é ficar pela rama já que não só ele já não se encontra entre nós como permite — ao menos isso — que uma nova geração (re)descubra as suas famosas canções. É o público português que merece melhor do que ser brindado com estes filmes paupérrimos em quase tudo, esforçados aqui e ali, mas cujo resultado final resume-se a um vazio de ideias, uma minissérie porcamente retalhada para pouco mais de 90 minutos.
Não que eu esteja a reclamar do lançamento no grande ecrã de resumos de minisséries que, eventualmente, serão expandidas nos nossos televisores ou serviços de streaming: cinema é uma arte cara e se esta é a forma de arranjar financiamento no seio da nossa pobre indústria audiovisual, que seja. Ademais, isso não impediu que obras semelhantes como Variações e Bem Bom alcançassem bons resultados mesmo com todas as limitações orçamentais que conhecemos. Não, o problema de Playback é uma mão cheia de decisões equivocadas que ampliam outras falhas e afundam o projeto.
Uma delas diz respeito ao números musicais: seguindo o exemplo de Rocketman, Playback não se restringe à cronologia dos factos e, assim, canções como “Eu Não Sou Poeta” e “Discoteca” pontuam o início da carreira de Paião (Ferreira) embora tenham sido lançadas anos depois e “Pó de Arroz” serve como pano de fundo para o noivado do cantor com Zaida (Dutra). A questão é que também não há verdade emocional alguma ali; as músicas surgem naqueles contextos aleatoriamente, como uma obrigação de exibir o catálogo mesmo que seja da forma mais tosca possível.
Enquanto isso, o realizador Sérgio Graciano filma as sequências musicais sem mergulhar a fundo nelas, limitando-se a longos planos gerais que tornam tudo aborrecido e desperdiçam as (boas) coreografias dos figurantes em cena. E se a ideia de filmar o já citado noivado num plano-sequência acaba por dar algum refinamento visual que o filme tanto precisa, a decisão de acompanhar outro número num movimento circular naufraga quando a música acaba e um produtor começa a falar, sendo que a câmara continua incompreensivelmente a girar, culminando num instante pavoroso e quase amador em que uma divisória surge no plano e ocupa toda a tela durante alguns segundos!
No meio desta falta de energia, não há muito que o elenco possa fazer com personagens tão rasas: Rafael Ferreira, por mais parecido que seja com o verdadeiro Paião, nunca passa da mera mímica; Laura Dutra limita-se a ser a companheira estoica; Albano Jerónimo tem talento a mais para isto; e Anabela Moreira passa um vexame como a professora de Medicina mais comatosa de todo o sempre (a aula que ela leciona arrancou gargalhadas na minha sessão, mas pelas razões erradas). E nem vou comentar aquele “amigo imaginário” que aparece num par de cenas e que provavelmente foi a maior vítima do trabalho de talhante feito pelo responsável que teve de condensar a minissérie numa longa-metragem.
Prejudicado também por diálogos carregados da mais pura exposição e que tratam o espectador como se este fosse estúpido (a certa altura, alguém sugere a Paião que “componha qualquer coisa… desde que não seja em playback”), Playback ainda perde tempo com sequências de sonhos que antecipam o infame acidente de viação que colocou um ponto final numa carreira que ainda teria muito para dar — um tópico de premonição e fatalismo que, por si só, já seria questionável, mas que roça o mau gosto ao ser apresentado minutos antes da tragédia em si que, por sua vez, é encenada em câmara lenta porque um toque de sadismo fica sempre bem.
E como não há nada que não possa piorar, a narrativa recusa-se a terminar sem mencionar o boato de que o cantor fora enterrado vivo — algo que poderia ser melhor explorado na minissérie como um epílogo e que, aqui, é enfiado a martelo e descartado logo de seguida.
Dos valores de produção frágeis ao ritmo sonolento, passando pela recusa (não, mais: pânico) em fazer qualquer comentário sócio-político num período tão efervescente como o pós-25 de Abril, Playback é um biopic tão soturno que chega a ser inacreditável como tal obra poderia ter como inspiração alguém que efetivamente não tinha uma grande voz, mas era um compositor prolífero, um letrista virtuoso e um artista querido que foi quase como um cometa que passou no firmamento musical português.
Não que o filme se esqueça disso; só que em vez de o mostrar, alguém o dirá a certa altura. Nem que seja o próprio Paião a dizer para si mesmo. E da forma mais óbvia possível.
