Digger (2026)
Realização: Alejandro G. Iñárritu
Argumento: Alejandro G. Iñárritu, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone, Sabina Berman
Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons, Robert John Burke, Sophie Wilde
★★
Este texto contém spoilers uma vez que é impossível discutir o filme sem revelar pontos importantes da narrativa. Sigam por vossa conta e risco.
Bem feita, a sátira pode resultar em algo poderoso e catártico. Juntamente com a sua prima direita, a paródia, esta técnica tem o condão de diminuir o seu alvo ao ponto do ridículo através do exagero e do choque, permitindo que o público reconheça as convenções ao mesmo tempo que ri delas. Mais ou menos sérios, bons exemplos não faltam no Cinema: se O Grande Ditador riu de Hitler no seu auge, O Aeroplano fez o mesmo para com os filmes-catástrofe de Hollywood dos anos 70; se Dr. Estranho Amor ousou ridicularizar as grandes potências em plena Guerra Fria, Walk Hard não teve problemas em reduzir a pó os clichés dos biopics musicais que infestam as salas todos os anos (e como ninguém aprendeu nada com a história de Dewey Cox, o seu efeito torna-se ainda mais duradouro).
Sim, eu acabei de comparar dois dos filmes mais politizados da História com duas comédias idiotas (no bom sentido) e colocá-los em pé de igualdade uma vez que, como sátiras/paródias, todas elas são incrivelmente bem sucedidas naquilo a que se propõem. Já de Digger não posso afirmar o mesmo: presunçoso e irritante, este é um exemplo de sátira mal feita. Pior ainda: é uma sátira que a todo o momento justifica a sua função e explica, em grandes detalhes, o efeito que quer despertar no público. Ao final da sessão, eu estava, francamente, perplexo. E não num bom sentido.
Digger Rockwell (um Tom Cruise carregado de maquilhagem — ou, se calhar, sem maquilhagem alguma e este são os seus verdadeiros 64 anos), o homem mais poderoso do mundo, provoca uma catástrofe numa das plataformas petrolíferas que explora na Gronelândia. A lutar contra o tempo e aconselhado pelo cientista Nirav Ganesh (Ahmed), Digger lança-se numa tentativa desesperada de controlo de danos (não tanto ambientais e mais reputacionais) em conjunto com a administração norte-americana que é encabeçada por um presidente inescrupuloso e cretino (Goodman), o que se reflete na covardia e arrogância do seu gabinete (nada relacionado com a atualidade, portanto…).
Tomado pelo burlesco desde os primeiros segundos, Digger conta com um design de produção fascinante que insere as suas personagens em cenários com misturam opulência e falsidade, num reflexo das suas riquezas materiais e índoles corrompidas, e não tem receio em abraçar o absurdo: o idoso felino que acompanha Digger tem um visual apropriadamente animatrónico, os movimentos são exagerados e os sons acentuados (as cadeiras chiam ao mínimo girar), e todos comunicam aos gritos embora estejam a pouca distância uns dos outros. Ao mesmo tempo, a maquilhagem de Tom Cruise chama a atenção para si por não ser totalmente convincente — e o filme sabe disto já que o coloca de tronco nu e boxers logo nos primeiros minutos.
Há uma razão para toda esta estranheza e exagero e que é revelada por volta da meia hora da projeção: a história do desastre ambiental é somente uma elaborada peça de teatro chamada “Fossil Fools” (um bom trocadilho) e o que estamos a acompanhar é o ensaio geral. Daí em diante, acompanhamos os atores entre curtas pausas e a peça em si que, nem preciso referir, é uma sátira que dramatiza os eventos que levaram a um cataclismo planetário.
E aqui começam os problemas: se a narrativa já era prejudicada por diálogos estridentes em longas sequências sem grande piada (ainda que justificado por ser uma produção teatral), ao sermos informados do artificio da “peça dentro do filme” tudo o que acontece na dimensão “fictícia” perde toda a tensão ou interesse, tornando-se numa experiência cansativa. O pior, no entanto, é perceber que o que acontece “fora” do palco não tem qualquer sustentação dramática: há uma trama sobre uma filha desaparecida que leva a nenhures e um dilema no ator principal sobre o impacto da produção serve apenas para que Alejandro G. Iñárritu encha o peito para explicar o “efeito libertador da Arte” e como esta é útil como mecanismo de superação de dor e trauma. Sim, isto é analisado ao pormenor num exercício de vaidade dos produtores, quase como se estes se congratulassem por serem tão inteligentes que têm de explicar a nós, pobres espectadores, a função de uma sátira!
Isto é uma pena já que o elenco dá tudo de si: Tom Cruise é incapaz de atuar no piloto automático e a sua típica intensidade serve bem a narrativa ao passo que John Goodman e Riz Ahmed encontram um equilíbrio perfeito na proposta do filme (apesar da talentosíssima Sandra Hüller ser desperdiçada). Se há algo que fere mortalmente Digger é mesmo o seu péssimo roteiro: com situações cómicas que falham mais do que acertam e recheado de discursos que, embora bem intencionados, martelam constantemente a mesma mensagem (os milionários só querem saber de si e temos de preservar o planeta — jura?!), ele é inegavelmente ambicioso e isso é de louvar; mas também não há como esconder que ele é incapaz de reacender o interesse mal revela o seu segredo, sendo que a narrativa perde gás a partir desse momento e resulta num triste exercício de paciência com um autor claramente deslumbrado com a sua suposta genialidade.
Assim, é até meio surpreendente que a conclusão consiga resgatar alguma sensibilidade que falta no resto da projeção. O problema é que, até lá chegar, temos de levar com quase duas horas da autoindulgência de Iñárritu, orgulhoso do seu filme com uma Grande Mensagem e que, pelo meio, nem percebe que presta um desserviço ao Teatro (pensem na sequência do Air Force One e tentem planear a logística daquilo em cima de um palco. Faz algum sentido?).
Eu não veria “Fossil Fools” nem que me pagassem.
